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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Corpos e almas

Primeiro, os factos:

Perfections, de W. Whitman
Only themselves understand themselves and the like of themselves,
As souls only understand souls.


e

Arte de Amar, de M. Bandeira

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.



Depois, a minha conclusão: parece que dizem coisas diferentes, mas não, é mentira, falam do mesmo. Mas eu acho que nem corpos nem almas se entendem. É nas falhas, interstícios improváveis, e nas rupturas momentâneas da perfeição orgulhosa dos "eus", na verdade das quedas e das feridas que o encontro acontece.
Mas se quiseres estragar tudo, podes dar-lhe imediatamente foros de eternidade...

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Santa Bárbara



Gosto de pensar num lugar assim, onde o céu conturbado contrasta com a luz doce sobre a palha seca e a pedra quente das colunas. Gosto de lembrar como os meus beijos sabiam a uma vontade urgente, quando o simples tocar da tua mão me acendia e soltava sedes e fontes adormecidas. Mas, naquele alpendre, no fim da tarde, ter-me-ia encostado mansamente no teu peito, tecendo cantigas de rola dentro de mim.
Pedindo apenas mais tempo de uma perfeição tão fundamente sentida quanto efémera.


terça-feira, 22 de abril de 2008

Dia da Terra




La terre est bleue comme une orange ...

Paul Eluard.


Daniel Blaufuks tem um trabalho com este título, mas não encontrei imagens disponíveis. Paciência. Esta laranja veio daqui.






sábado, 24 de novembro de 2007

Fogo

Que farei quando tudo arde?
Sá de Miranda

Que farei no outono quando ardem
as aves e as folhas e se chove
é sobre o corpo descoberto que arde
a água do outono

Que faremos do corpo e da vontade
de o submeter ao fogo do outono
quando o corpo se queima e quando o sono
sob o rumor da chuva se desfaz

Tudo desaparece sob o fogo
tudo se queima tudo prende a sua
secura ao fogo e cada corpo vai-se

prendendo ao fogo raso
pois só pode
arder imerso quando tudo arde

Gastão Cruz, As Aves

Créditos: Ciranda

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Querer


Vou desvendar o teu corpo
Por entre as folhas de ouro
Corpo de gazela
Fugidio
Transparente
Créditos: Ciranda.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Créditos: Ciranda, Alberto Caeiro.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Dias de poesia

Gostas?

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já.

É ouvi-lo melhor
Do que dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

Fernando Pessoa, 1931

É giro!
Giro? Giro? Que raio é giro? Lê lá bem. Não está mesmo a dizer para me dares um beijo agora e para pensares depois?
Não me parece. Se me apetecesse beijar-te, beijava. Queria lá saber do poema.
Eu também não. Vem cá.