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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Fragmentos do discurso amoroso



Conheço bem o poder das palavras. Já o experimentei talvez vezes demais e sei como pode levar-nos longe. Na verdade, não acredito nelas... mas sinto-lhes a falta. Se uma realidade não é descrita, se um sentimento não é nomeado, existem mesmo assim?

Por muito que eu queira ser lúcida, preciso da ficção construída pelo discurso, mesmo que seja uma teia em que me venha a enredar sozinha. A verdade é que sei muito bem quando hei-de ficar calada e quando vale a pena ser expansiva. Não sei é pôr palavras na boca de ninguém sem passar para o domínio do fingimento. E sinto-me profundamente desiludida por causa disso.


domingo, 27 de abril de 2008

Desenganos



Ilustre Peregrina, que ilustre é toda a que segue esta via pois nela perpetua a nobreza da alma que não tem fim, não desperdices tesouros, que mais que nas pérolas que derramas perdes no sofrimento que arriscas. Não há amar sem padecer. O primeiro toque que dá o amor é uma seta que atira e uma ferida que deixa, e à causa hão-de corresponder os efeitos. O amor foi favor, o sofrer é obrigação. Amor sem pena é amor de meninos que amam o seu mimo. Amor de tribulações é amor de grandes, que amam os seus trabalhos e não os seus interesses, e este é o que se chama amor.


Enganos do Bosque
, 1741: 145.